quinta-feira, 24 de outubro de 2013

lendas brasileiras, cartas de Drummond, Millor, Sagan e depoimentos sobre Fred Jordan


Em tempos contemporâneos nos quais o ar em Terra Brasilis, está cada vez mais insalubre, pesado, malcheiroso...    dar uma espiada nas  "lendas brasileiras"  de Fred Jordan, pode ser uma dica interessante.
                             
                          Acho que para estas primeiras da serie, Fred recomendaria, como fundo musical, o Prelude nº4 de Villa Lobos



iara



negrinho do pastoreio



saci-perere




Já aqui, talvez "frevo rasgado" de Egberto Gismonti



primavera



cobra grande



indio voador



as amazonas




rio amazonas




A partir daqui, Preludio - movimento das bachianas brasileiras nº4



paiquere



lobisomem




tatus brancos



mourado jarau





sábado, 12 de outubro de 2013

Jordan em Frankfurt



Esta ocasião da feira do livro de Frankfurt (maior evento editorial do mundo) na qual a obra de Fred Jordan está sendo destacada, vem despertando o interesse e a curiosidade em colecionadores e apreciadores em todo o mundo, para conhecer e/ou adquirir quadros e gravuras impressas pelo artista.

A imagem (contida no link embaixo)  do centenário de São Paulo 1953, foi escolhida como motivo pela mostra paralela, pelo arquivo do exílio alemão. 



CRIAÇÃO / DESIGNER GRÁFICO
Homenagem a Fred Jordan
Depoimentos
A SEÇÃO CRIAÇÃO deste número comemorativo dos 10 anos da revistaESTUDOS AVANÇADOS presta uma homenagem ao designer gráfico Fred Jordan. Não sem razão, embora seu trabalho de fronteira entre a arte e a ciência caberia muito bem nesta edição de aniversário. Que revista não deseja ter a colaboração desprendida e voluntária daquele que é comparado por Olaf Leu – um dos designers mais conceituados da Europa – com o instrumentista que chegou a primeiro violino da orquestra? É pelas suas mãos que ESTUDOS AVANÇADOS consolida pouco a pouco sua identidade visual, seja através da layout da capa ou da escolha cuidadosa da tipologia em que são compostos os textos selecionados para publicação.
Além de transcrever trechos de depoimentos colhidos entre seus numerosos amigos e admiradores, reservamos bom espaço para reproduzir alguns dos trabalhos mais marcantes de sua carreira artística.
Ousadia
Tide Heilmeister
QUEM SOU eu para dar um depoimento a respeito de um profissional cuja influência venho recebendo há quase 40 anos? Fred Jordan é, para mim, o grande precursor da ousadia gráfica no Brasil. Com sua batuta de maestro faz das artes gráficas uma beleza harmoniosa de formas que se fazem valer.
Tide Heilmeister é artista gráfico.

Criatividade
Alexandre Wollner
JORDAN, vindo da Alemanha, tem uma formação autodidata profunda aqui no Brasil, por força de sua intenção de evoluir. Hoje influencia o mercado gráfico com o uso da evolução de seus trabalhos artísticos e visuais, porém altamente tecnológicos, distanciados das influências de moda e persistindo em aprofundar-se nesse mistério que chamamos criatividade.
Alexandre Wollner é designer gráfico.

Vento






O efeito Fred Jordan
Maria Bonomi
EM 1952, quando a gráfica Niccolini garantiu ao jovem Fred Jordan um espaço experimental para enriquecer a visualidade do seu brinde padrão (a folhinha/calendário), com o intuito de proclamar sua excelência tecnológica, deflagrou uma revolução no mercado da publicação e da embalagem. Ano a ano a criatividade da Niccoliniembaralha as cartas da concorrência. Sua competitividade elevava o nível de qualidade do trabalho dos demais. O que faz Fred Jordan quando encabeça tecnicamente uma das maiores empresas gráficas do país? Coloca um temaem questão. Meio na contramão, como veio a propor recentemente Oliviero Toscani, começou a embutir em seu brinde um marcante questionamento das vivências primordiais do momento, chamando seu público a meditar sobre os fatos...
Por vias diretas ou indiretas, passando até por metáforas irônicas, atingiu em mais de uma ocasião cidadãos comuns que deixavam de sê-lo pois ganhavam a provocante folhinha do Jordan. Discutiam o misterioso calendário que, pontual como um raio de luz, saía do nada... sempre por volta do fim do ano e em pleno consumo de banalidade natalina. Fred Jordan fabrica um objeto gráfico surpreendente, no qual os acontecimentos do mundo científico e do saber da humanidade são transplantados a serviço da intuição. Fred Jordan tornou um veículo prosaico porta-voz da fenomenologia universal e aproximou o homem um pouco mais da misteriosa fonte da criação artística: ele mesmo enquanto observador do cosmos.
Maria Bonomi é artista plástica.

Uma parceria de 45 anos
Demerval Lázaro
A CRIATURA, ou melhor, o calendário que Fred Jordan e a gráfica Niccolini trazem para o mercado todos os anos, desde 1952, não é concebido apenas porque todos fazem calendários – alguns mais criativos, outros menos –, ou simplesmente porque a empresa, como quase todas as gráficas, precisa fazê-los. Então por que o faz? A resposta é curta, mas completa: em razão da participação total de Fred Jordan em sua execução. Ele se utiliza, principalmente, de pesquisas, e transfere para o calendário todo seu conhecimento no campo das artes, história, astronomia. Busca inspiração na realidade, no passado, e ausculta o futuro. O resultado de seu trabalho encerra formas, luzes, cores, harmonia, inovação, alegria, estupefação, resignação. O calendário, ao ser colocado nos escritórios de nossos clientes, exibe todos os atributos de um produção gráfica de qualidade, transmitindo a imagem de uma empresa que executa seus serviços com esmero e que, portanto, tem a capacidade de transferir para o produto de seus clientes os mesmos predicados.
Demerval Lázaro é assessor de diretoria da gráfica Niccolini.











HOMENAGEM
Fred Jordan, o grande precursor da ousadia gráfica no Brasil
Dario Luis Borelli
FRED JORDAN, designer gráfico alemão, naturalizado brasileiro, faleceu aos 73 anos de idade na manhã do dia 26 de fevereiro de 2001 no Hospital Sírio Libanês. A seu pedido, o corpo foi cremado no cemitério Vila Alpina. Além de numerosos amigos e admiradores, deixou viúva a senhora Sônia Jordan e o filho de ambos, André Jordan.
Para ESTUDOS AVANÇADOS a perda de Fred Jordan é irreparável. Foi por suas mãos que a revista buscou pouco a pouco consolidar sua identidade visual, seja mediante o layout da capa ou a escolha cuidadosa dos tipos em que são compostos os textos selecionados para publicação.
ESTUDOS AVANÇADOS sente orgulho de ter recebido a colaboração desprendida e voluntária daquele que foi comparado por Olaf Leu — um dos designer mais conceituados da Europa — como o instrumentista que chegou a primeiro violino da orquestra.
Nas páginas dedicadas à Criação ESTUDOS AVANÇADOS publicou, em sua edição número 19 (set./dez. 1993), um ensaio bilíngüe de fronteira entre a ciência e a arte de autoria de Fred Jordan, acompanhado de um encarte ilustrado sobre os experimentos prismáticos de Goethe. O encarte mostra como fazer experimentos com recursos simples, visando a facilitar o acesso aos estudos fundamentais de Goethe sobre a cor — a Farbenlehre.
Também, quando ESTUDOS AVANÇADOS cumpriu 10 anos de vida, homenageou Fred Jordan nas páginas dedicadas à Criação em seu número 31 (set./dez. 1997), reproduzindo alguns de seus admiráveis trabalhos gráficos, além de depoimentos de respeitados profissionais dentro de sua área de atuação.

O Quarteto






De Carlos Drummond de Andrade.Rio de Janeiro, 24 jul.1980. Carta manuscrita.
Comenta sobre o livro de Jordan Grandes gravações de música clássica em edição nacional. São Paulo: Atlantis, 1980. 80p.
Prezado Fred Jordan:
Surpresa agradável foi receber o seu pequeno mas valioso indicador de “Grandes Gravações”, que vem trazer uma régia “colher-de-chá” para os amadores da música erudita. Quanta informação útil e sistematizada, nessas páginas! Fico-lhe muito agradecido pelo oferecimento e mando-lhe o meu abraço cordial.
Carlos Drummond de Andrade 

De Millôr Fernandes.Rio de Janeiro, 30 jun. 1981. Carta datilografada sobre papel timbrado de Millôr Fernandes. Acompanha
foto de pintura de Millôr, O Jardim do dr. Koch, com bilhete colado no verso. Assina a foto Walter Ghelman. Texto na íntegra:
Meu caro Fred, mil perdões, mas, depois que desliguei o telefone, arrefeci de novo. Seu material, tão extraordinariamente bem acabado, me deu vergonha do meu mau acabamento e... fui esquecendo. Agora, diante da sua intimação telefônica, senti minha falha, juntei o que pude aqui,
e estou mandando. Oque pude, conforme você vê, não é muito. Se você puder tirar daí alguma coisa que sirva, muito bem. Senão o fato vale para nos ter aproximado e espero que possamos nos encontrar na próxima vez que fôr a São Paulo.

Tudo que lhe mando é coisa ocasional, que sobrou aqui: umas provas, umas transparências, uma foto. Só.
De qualquer forma, continuo à sua disposição para o que der e vier. Administrar a glória é que continua difícil. 
Um grande abraço do
Millôr.



De Millôr Fernandes.Rio de Janeiro, 13 dez. 1983. Cartão pessoal manuscrito. Texto, na íntegra:
Meu caro Fred Jordan
Muito obrigado por me lembrar que o tempo passa de maneira tão bonita (não o tempo, a maneira como você mostra). Fico com vergonha de minhas pobres grafias.
Um enorme abraço do
P.S. QUANDO É QUE (VIRA)
Millôr.
EU VOU VER A GRANJA VIANNA? IMAGINO ISSO MUITO EUROPEU, como soi, cheio de flores, um paraíso impróssivel. Ou estou errado?
Millôr.
De Millôr Fernandes.Rio de Janeiro, 28 fev. 1984. Cartão pessoal manuscrito. Texto, na íntegra:
Meu caro Fred – 1000, 1000 perdões!
Estou em falta com você depois daquela nossa magnífica testulia litero-humano-visual. Vou ver se te mando os livros logo – se os milicos me derem tempo.
Um abraço, Millôr.
De Millôr Fernandes.Rio de Janeiro, 31 dez. 1985. Cartão pessoal manuscrito.
Agradece o Calendário Niccolini 1986, 
Cor 2: Complementares, desenvolvido em 1985. Texto, na íntegra:
Meu caro Fred,
Muito obrigada pelo belíssimo calendário. É o que faltava a Dürer – uma melhor tecnologia de reprodução, e um colaborador do teu nível. Espero vê-lo em 86.
Happy tudo.
Seu amigo Millôr.
De Millôr Fernandes.Rio de Janeiro, 26 dez. 1988. Cartão pessoal manuscrito. Com ilustração de Millôr. Agradece o Calendário Niccolini 1988, Cor 4: Amarelos e laranjas, desenvolvido em 1987. Texto, na íntegra:
Fred,
Recebi, como em todos os últimos anos, teu magnífico trabalho. Cada vez mais bonito e cada vez mais perfeicionista. Mas é preciso que alguém diga: você é um louco.
Com amizade e a admiração do Millôr.

De Millôr Fernandes.
Rio de Janeiro, 16 dez. 1999. Cartão pessoal manuscrito. Com ilustração de Millôr.
Comenta sobre o fim da produção dos Calendários Niccolini. De fato, o último calendário impresso pela gráfica foi em 1998 para 1999, intitulado Noite estrelada.
Texto, na íntegra:
Fred,
Como não vai ter mais Fred-calendário? Só se acabou o tempo – o que não é improvável. Já acabaram com a genealogia cronológica. Não estão querendo fazer um dinossauro mais novo do que nós dois?
O que aconteceu na nossa relação foi também um fato tecnológico. Minha agenda eletrônica apagou – isto é apagou todos os meus amigos – é assim que se morre, hoje em dia. Tudo brincadeira, meu caro amigo. Você ainda está em Cotia? Quem sabe um dia eu tomo coragem e vou a São Paulo? Mas, enquanto isso, os calendários, não deixe de mandar. O último está no melhor lugar do estúdio, a cozinha, e me promete dias até o início do próximo ano.
Enorme abraço, velho amigo seu
Millôr. 


De Carl Sagan.
[Ithaca, NY], 26 set. 1995. Bilhete datilografado. Inglês.
Agradece o envio de Calendários Niccolini. Faz referência a três deles, especialmente o Quarteto, que ganhou lugar de destaque no escritório de Sagan. 
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O geógrafo Aziz Ab'Sáber, com quem Fred Jordan manteve laços profundos de amizade, acompanhou de perto o desenvolvimento profissional do artista: "Ele dividia seu tempo entre a leitura de obras de grandes intelectuais e filósofos alemães, e projetos gráficos. Procurava assim um caminho para alcançar independência cultural e garantir a sua sobrevivência futura".
Fred Jordan nasceu em Berlim no ano de 1927. Veio com os pais para o Brasil em 1936, com nove anos de idade. Desde 1950 atuou como designer gráfico de empresas e a partir de 1980 tornou-se um profissional autônomo.
Durante toda a década de 60 foi diretor de arte e, nos anos 70, diretor técnico da Indústria Gráfica L. Niccolini. Projetou e produziu em 1958 a exposição Os primeiros 30 mil anos para a Menninger Foundation, Kansas. Deuworkshops no Cenafor, em São Paulo; na School of Design, Londres e na UCLA, Los Angeles. Fez, entre outras, as seguintes exposições individuais: Masp, 1978; Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro, 1984; Staatliches Museum für Angewandte Kunst, Munique, 1986. Possui, entre outros, trabalhos nas coleções do Museum of Modern Art, Nova Yorque e Die Neue Sammlung, Munique. Preparou números especiais dedicados ao design publicitário e gráfico no Brasil para as revistas Idea, Tokio, 1959, e Novum Gebrauchsgraphik, Munique, 1982. Tem trabalhos publicados em GraphisNovumModern Publicity, Idea e História geral da arte no Brasil (coordenado por Walter Zanini), entre outros. Criou o layout da série, hoje interrompida, SBPC Documenta, e o logotipo da Abigraf (Associação Brasileira de Indústrias Gráficas).
A alegria de conviver e aprender com Fred Jordan não se encerra com a sua morte. O seu legado permanece vivo entre nós e nas páginas de nossa revista.
Dario Luis Borelli é editor assistente de ESTUDOS AVANÇADOS, mestre em Jornalismo e Editoração pela Escola de Comunicações e Artes da USP e professor de Produção Editorial da Universidade Anhembi Morumbi.

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