sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Judaísmo e Israel

Uma visão pessoal sobre judaísmo e Israel
Respostas a idéias confusas sobre assuntos polêmicos



Israel é um Estado laico?


Israel é até o momento o único Estado laico e democrático de todo o Oriente Médio. Todos os cidadãos são iguais perante a lei, sem distinção de sexo, religião ou não religião. Ironicamente, os únicos árabes de todo o Oriente Médio que vivem numa sociedade aberta que em toda sua historia não teve um único dia sem liberdade de expressão, são os mais de um milhâo de árabes israelenses. Votam e participam de um parlamento eleito. Só não servem o exercito, o que não é uma discriminação e sim um direito. É comum a mídia repetir que árabes são cidadãos de segunda classe. É verdade que muitos árabes têm um nível de vida mais baixo que seus compatriotas judeus, mas isso não se deve a uma discriminação social, já que um engenheiro judeu recebe o mesmo que um árabe, e sim ao fato de os árabes geralmente terem mais filhos, comumente mães limitarem se ao papel de donas de casa e filhas não irem pra escola. O mesmo acontece com uma parcela de judeus ortodoxos. Falando dos ortodoxos, esta é a parcela que mais cresce em Israel.  Se 20 % da população é religiosa e vota, 20% do parlamento também o é. No parlamento de 120 deputados, até hoje só foi possível formar governos de coligação. Os partidos religiosos são cada vez mais o fiel da balança, impondo condições para participar do governo, colocando o arquétipo laico da democracia israelense em xeque. Por outro lado, numa sociedade aberta com justiça independente, existe o debate e a capacidade de reação. Agora, o mais importante é a pluralidade cultural que se reflete na criatividade, destacando Israel mundo a fora, tanto nas artes como na tecnologia de ponta.



 Qual o peso dos fundamentalistas judeus na sociedade israelense?


Existem religiosos e religiosos. Até entre os ortodoxos existem correntes distintas. Existem os que só rezam e são sustentados pelo governo e os que fazem questão de conciliar suas rezas com trabalho duro ou suas obrigações com o serviço militar. Agora, um setor religioso isolar-se, isentando-se do dever de proteger o país, foge a compreensão do resto da sociedade. 

Sobre este ponto, eu lembro que desde criança, judaísmo pra mim estava impregnado de emoção, tristeza, humor e perguntas, até porque judeus costumam responder com perguntas. Ingredientes presentes na nossa historia, minha família, nos profetas, escritores, nos Woody Allen’s. Quando assisto aos religiosos, principalmente aos mais fanáticos, percebo neles um mesmo denominador comum: A falta de humor. A falta de perguntas. Eles sempre tem as respostas... prontas.



 A definição de judeu para Israel é diferente da definição de judeu para os ortodoxos ?


Se o judaísmo tem tantas correntes, Israel é por sua natureza a soma destas correntes e mais algumas. Aquela velha ideia: "2  judeus 3 opiniões" e tantos contos e piadas não existem por acaso. Para a maioria dos religiosos só é judeu, filho de mãe judia ou aquele convertido pela Halacha. Agora, a coisa não para por ai. Mais que uma nação, Israel é uma coleção de argumentos. E neste ponto  preciso voltar 2 mil anos na historia e relembrar  uma tragédia.

Quando pensamos no holocausto, pensamos naturalmente no holocausto nazista. Em minha opinião, entre tantas perseguições e pogroms, aconteceram 2 holocaustos. O ultimo na Europa e o romano ha 2 mil anos. O império romano  pode sim ser comparado ao nazismo. Israel foi ocupado e escravizado por muitos impérios mas nenhum pôde até então ser comparado ao romano. Entre tantas atrocidades, os soldados romanos tinham o habito de estuprar as mulheres ao conquistarem povos estrangeiros. Quando esses invasores chegaram em Israel, este não tinha condições de oferecer resistência. Boa parte dos homens foi massacrada.  Até então era judeu todo filho de pai judeu, como em todas as civilizações e até hoje costuma ser esta a condição que define a religião e a própria pátria do filho. Com a conquista de Israel pelos romanos, o povo, a religião e a tradição estavam destruídos. Teria sido este, entre tantas guerras e provações, o golpe de misericórdia, se o rabinato não tivesse tomado naquele momento a dura e surpreendente decisão de inverter as leis e considerar judeu aquele nascido de ventre judeu. Historicamente a aventura judaica se divide entre antes e depois do holocausto romano.

Graças a esta decisão dramática, a historia do povo judeu pôde continuar. Agora, segurar-se numa lei que foi vital ha 2000 anos até os dias de hoje, já não faz sentido, num mundo em que casamentos mistos  passam de 50% na diáspora. É preciso que no mundo moderno assim como ha dois mil anos, rabinos e lideres judeus tenham a coragem de assumir que de fato é judeu, todo aquele de mãe ou pai judeu e que se identifique com essa etnia, religião ou tradição ou história ou lágrimas ou humor ou perguntas ou a combinação disso tudo e mais algumas.


O que é sionismo hoje?

Até a criação do moderno Estado de Israel há 63 anos e durante as suas primeiras décadas em que a nação acolheu judeus de todos os cantos do mundo ou em operações ousadíssimas como “tapete mágico” quando milhares de judeus iemenitas, ou ainda mais recentemente na operação “Moises”, os Falachas da Etiópia foram resgatados, sionismo era o ideal de reunir todo o povo judeu em sua pátria espiritual.
Um dos momentos mais simbólicos que antecederam a criação de Israel, era a chegada de navios abarrotados de refugiados, sobreviventes oriundos da Europa ainda em chamas, para as costas da palestina sob mandato britânico. Soldados ingleses enfileirados ordenando que os navios seguissem para Chipre. Os judeus que outrora já tinham conseguido estabelecer-se na palestina, vindos por trás, correndo para o mar, acenando aos refugiados para  pularem na água e trocarem de roupas com eles. Ai todos posicionavam-se frente aos soldados e sugeriam que eles atirassem. Constrangidos, até porque havia repórteres da BBC como testemunhas, não lhes restava alternativa do que permitir o ingresso de novas levas de refugiados a palestina.
Hoje vivem 6 milhões de judeus em Israel e outros 7 na diáspora dos quais 5 nos EUA. Há judeus fazendo planos para viver em Israel, mas agora há tambem israelenses, cansados do estado de guerra e tensão constantes, fazendo planos para morar em Manhattan ou mesmo Berlin.
O sionismo moderno pode contemplar tanto a motivação de viver em Israel, quanto assumir viver a cidadania de qualquer país, sem esquecer-se de sua raiz, historia, cultura e a identificação com Israel, com emoção, lágrimas, humor, perguntas...


Até que ponto as colônias judaicas são um obstáculo para a paz?

Quando em 1967 Israel conquistou os territórios do Sinai e Gaza do Egito, o Golã da Siria e a Cisjordania da Jordania, numa guerra de vida ou morte, que lhe foi imposta, a intenção era devolver estes territórios em troca de paz e reconhecimento por parte dos países árabes. Não veio a paz muito menos reconhecimento. Vieram mais ataques terroristas e em 73 a guerra do Yom Kippur. Não fossem os territórios, que serviram como um para choque, Israel teria sido esmagado pelo ataque surpresa dos exércitos árabes. Anos mais tarde, Anuar Sadat reconheceu a existência de Israel e em troca, Israel devolveu toda a península do Sinai ao Egito. Por oportunismo político o Egito não queria Gaza. Judeus religiosos motivados por promessas messiânicas, começaram a construir colônias tanto em Gaza quanto na Samaria e Judeia, nomes bíblicos da Cisjordania e com a estagnação de qualquer processo de negociação mais sério com  autoridades palestinas, os sucessivos governos tanto de esquerda como de direita, faziam vistas grossas a essa ocupação.
Há alguns anos, numa tentativa de romper o status quo, o governo do então primeiro ministro Ariel Sharon, decidiu numa iniciativa unilateral e surpreendente, desmantelar as colônias de Gaza e retirar-se completamente desse território.                      
Esta foi a maior chance possível à paz.
Se os palestinos tivessem estabelecido um Estado provisório neste território, cultivando,desenvolvendo, construindo escolas, sem hostilizar seu vizinho e depois sim, reivindicassem sua expansão para a Cisjordania, Israel não teria outra saída senão desmantelar a maioria das colonias e devolver a quase totalidade da Cisjordania, em troca do bem mais vital e urgente para a sobrevivência da nação: A Paz. Tenho certeza que mesmo a maioria dos colonos entenderia que o sacrifício no fim, valia a pena.
Esta foi a maior chance possível à paz. Este foi o grande risco e cartada política de Sharon.
Tinha tudo pra dar certo mas deu tudo, absolutamente tudo errado.
O grupo radical Hamas apossou-se de Gaza, implantou o terror, jurou destruir Israel e começou a disparar seus mísseis.
Imagine este cenário na Cisjordania, as portas de Jerusalem e Tel Aviv. Devolvo a pergunta: São as colônias judaicas o obstáculo para a paz?


Até quando Israel deve adiar um ataque preventivo contra as instalações nucleares do Irã?

Até o limite do possível, pelas seguintes razões: 1- A distancia. Os caças terão que ser abastecidos em pleno vôo, sobre espaço aéreo inimigo. 2- O Irã dificilmente será surpreendido, por já esperar este ataque. 3- O Irã é 100 vezes maior que Israel e os alvos distantes uns dos outros. 4- Segundo serviços secretos, varias instalações encontram-se rentes a montanhas e a dezenas de metros muito bem concretados no subsolo. 5-  Alem de contar ele mesmo com um exercito regular poderoso e um sistema de mísseis avançadíssimo, os aiatolás podem mobilizar a qualquer momento seus fieis jihadistas no Libano, o Hezbolah, com milhares de mísseis já apontados para Israel.
Enquanto for possível, Israel atrasa o programa nuclear iraniano com sabotagens, guerra cibernética contra as centrifugas nucleares computadorizadas, e a eliminação de cientistas iranianos e russos, envolvidos com o programa, através de seus heróis anônimos do Mossad.
As sanções econômicas por parte da comunidade internacional, teriam um forte efeito, não fosse o Irã um dos maiores exportadores de petróleo num  planeta em que a demanda por esse ouro negro é desgraçadamente cada vez maior, com as alternativas energéticas ainda muito fracas. É uma merda política e ambiental.
Agora, que fique claro. Israel jamais aceitara um Irã, cujos lideres querem varre-lo do mapa, com a bomba atômica. Holocausto nunca mais. Quando todas as alternativas tiverem se esgotado, o ataque preventivo será a única opção.



 Andre Jordan  (texto de sua autoria)

4 comentários:

  1. André, parabéns pela nova visão concisa, profunda e direta dos atuais desafios israelenses, saindo do viés e das mesmices repetidas, exaustivamente, pela imprensa brasileira. Os noticiários carecem de uma análise dos reais interesses políticos envolvidos neste imbróglio atômico. Qual é sua opinião?

    ResponderExcluir
  2. Acho que você pegou meio pesado com os religiosos...

    ResponderExcluir
  3. Estive recentemente em Israel e fiquei estupefato com a extraordinária cultura do povo e o desenvolvimento em todas as áreas, num pais literalmente sitiado.

    ResponderExcluir
  4. Pena que você praticamente ignora o drama ou se preferir, beco sem saída, dos palestinos. Andre, o que você verdadeiramente pensa sobre isso?

    ResponderExcluir